7.7.06

Lente


Penso naquele país
ao mesmo tempo meu e estrangeiro
nesse lugar chamado rio de janeiro
onde fui tão feliz, tão infeliz
que hoje é memória cada vez mais fina
palmeira, asfalto quente, solidão
alguém de noite mijando numa esquina
a tarde a agonizar no calçadão
e uma parte da vida que ficou
parada nesse nome de cidade
o que seria um dia mas não sou
nem alegria então, nem já saudade

se ao menos conhecesse o nome
dessa coisa que sinto quando penso
na cidade que pouco a pouco some
enquanto, lá tão longe, o rio imenso
transborda de si mesmo, e de mim
nem um vestígio guarda, grão de areia
que o mar encharca e o sol enxuga sem fim
na praia larga e violenta e alheia
se ao menos um nome tivesse
essa coisa que trouxe na bagagem
nem alegria nem saudade, esse
outro país que desfoca a paisagem

3.7.06

Do Velho Testamento



a natureza da reza
é repetir sua dúvida
até que vire certeza
lá da vinha vinha vinha
o som de uma ladainha
noé com sua bengala
cambaleia, mas caminha
e este hino que brota
da barriga da baleia?
é o profeta que pilota
o primeiro submarino

1.7.06

Num postal de Babilônia


Onde está a minha cidade
deixei a que tinha
esta que adoptei
não é minha

falam quase a minha língua
mas com tão estranha sintaxe
que eu, quando abro a boca, é como
se mancasse

minha língua claudicante
vai tropeçando nos pronomes
e na falta de bigodes
no que se bebe, no que se come

quando, turista, visito
a cidade que deixei
lá não sou menos estrangeiro
ou então, se sou, já não sei

fiquei no meio do caminho
no meio do mar, no meio
do corredor do avião
entre lisboa e o rio

com outros no mesmo barco
faço churrascos, sambas, festas
para esquecer o que perdemos
fazer a conta do que resta

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