13.3.17

Narciso


O belo moço, debruçado
à beira da fonte, mira
a suprema maravilha
dentro do espelho gelado.
E decide apaixonar-se
pela luminosa face:
não pelo traço que conhece
que com seu próprio semblante
no amado rosto se parece
mas pelo dessemelhante:
pela criatura estranha
que à beira da fonte emerge
nas águas do amor se banha
o belo moço, e se perde.

(Do outro lado do espelho,
Narciso, lúcido, ignora
a conhecida miragem.
O céu se pinta de vermelho
- espanto tanto da hora -
a tarde ensaguenta a paisagem).


In Poemas Durante a Chuva
Lisboa, 1999, Mariposa Azual


6.11.16

Doméstica

I. 

A minha avó varria a casa
o avô criava galinhas
todos os dias vinha uma poeira nova
trazida pelo vento ou na sola das botinas
a minha avó acordava cedo
espanava o tampo das mesas, os braços da poltrona
juntava montinhos de areia no batente das portas
e recolhia tudo, silenciosa
no quintal, o avô criava galinhas
Suzana tinha sete pintos, o Baby quatro
mas Alfredo é quem tinha mais

por cima de tudo, o sol também se calava


II.

no entanto sobrou alguma coisa atrás de um armário
entre a parede e a cristaleira
nas páginas de um livro velho

as galinhas morreram todas - salvo uma
que ninguém tinha visto nascer e procriar
e que contudo espalhou a sua descendência

por fim a casa ruiu
os avós foram esquecidos
mas a cidade, inexplicavelmente
anda coberta dessa camada de pó - que se avoluma
enquanto piam pássaros nefastos.


in Poemas Durante a Chuva
Lisboa, Mariposa Azual

1.11.16

Agenda

Quando a manhã for a meio
e a tarde quase fatal
entenderei ao que veio
a madrugada, afinal?

aceitarei que anoitece
a hora a escorrer de mim
quando o que quis que viesse
não veio, não foi assim

e o olhar do tempo, tranquilo
no espelho da minha mão
repete que sobre aquilo
a resposta é muda - e é não?


Outubro 2016

5.4.16

Eco

para eu te querer mais fazes-te rara
dissipas-te entre quando e nunca mais
vasculho e lá não estás
chamo-te e calas
meu eco pela sala
onde andarás?

procuro provas de que foste um dia
faz um segundo
tanto tempo faz
teu fundo ainda em minha mão vazia
diz-me que voltarás
não voltarás

foste cabelo
cheiro
pele
língua
o espesso instante - e agora o que retenho?
quatro sílabas de um nome
o desenho

da sobrancelha em forma de talvez
e um vestígio feliz que aos poucos míngua
venceste
te desejo
agora vens?

10.10.15

Bondade

Ah, os deserdados da terra a naufragar
às costas da Sicília, em Ceuta, no mar Egeu
traficados em containers, mortos de frio, vendidos
na Europa rica como na Tailândia ou na China
prostituídos, escravizados, ah
a dor inesgotável do mundo

e se nem estiver para ir tão longe
basta apanhar o metro onde todos os dias
dependendo da linha e dos horários
há um cego para cada preferência
cada um com o seu estilo de mendicância

tenham a bondade de me auxiliar
dizem o dos olhos desorbitados
e a mulher que nem sequer tem olhos
sob as pálpebras cosidas à linha

o outro, o que improvisa ritmos com a bengala e o pregão
às vezes passa-se com a indiferença geral
abandona o tom choroso de pedinte
larga a vociferar contra a nossa avareza
a nossa maldade
a incorrigível mesquinhez deste povo

nessas alturas, ocasionalmente
até consegue furar a indiferença
há olhos que descolam dos iphones
sobrolhos que se franzem, um ou outro
passageiro mais sanguíneo que lhe devolve os insultos

mas nenhuma
nenhuma esmola
nem a minha
nem nenhuma
eu não tenho a bondade de o auxiliar
ninguém tem a bondade de o auxiliar

meu coração queria sofrer por essas dores
e tantas outras
tantas, tantas
meu coração queria sofrer por todas elas
mas não sofre

de vez em quando se encolhe, é verdade
quando calha na tevê um documentário de guerra
às vezes sobre a Síria, as mães da Palestina
no Facebook um vídeo sobre os curdos
os surdos
o que fizeram a um pobre cãozinho que já não dava jeito aos donos

de vez em quando então meu coração suspira
uma lágrima brota rápida
e logo seca

meu coração queria tanta coisa
mas quem tem tempo para tantas desgraças

ah, meu coração
era tão bom poder sofrer com tudo isso

era tão bom 

14.7.15

Sobre uma foto do rio São Francisco


O tempo vai fazendo o seu trabalho
e eu aplicadamente o contrario
 – não com força bastante para pará-lo
mas com a da corrente deste rio

que puxa um barco de volta pro mar
e o barco o vai vencendo, indiferente,
rumo à nascente onde não chegará.
Assim resisto. O tempo segue em frente.

E enquanto segue somos companheiros,
sem nunca coincidir, meu não, seu sim.
Quando encontrar o porto, o marinheiro

da margem se despedirá de mim.
O tempo terá sido passageiro –
eu, rio, em direção ao mar, sem fim.



14-07-2015

10.5.15

Treva

















O soldado entrincheirado
no seu buraco de lama
vê nascer lá fora a lua
seu coração se derrama
mas sua vista se turva
o inimigo viu primeiro
a lua, e com seu morteiro
explode-a em mil pedaços
o soldado estende os braços
para o luar espalhado
sobre a terra, sobre a treva
da trincheira do soldado

Cisma

























Se eu ficar aqui olhando
pro mar pro mar pro mar
ficar olhando até quando
a Terra se iluminar
se eu gastar todo o meu tempo
nesse cismar sem assunto
será que encontro o motivo
de existir mar
de haver mundo

Logística

O que é que eu faço de tanta cultura
tanto livro que li, tanta literatura
agora me atravancam a sala
fui comprar uma estante, era os olhos da cara
agora onde é que guardo o disco, a partitura
a enciclopédia, o dicionário
se ao menos eu tivesse um armário
vida dura dura dura dura
o que é que eu faço de tanta cultura

29.7.2004

16.6.14

Sugestões para celebrar 90 anos

                                   para Yacy Kopke

Para celebrar 90 anos
minha mãe
o que é que vamos fazer?

Vamos fazer uma festa
não: vamos fazer muitas festas
festas na cabeça, no cabelo
festas na nuca e nos ombros
no neto, no sobrinho, no amor da vida inteira
no cachorrinho e no ratinho branco
nos olhos e no coração

Vamos fazer uma festa

ou então vamos fazer um bolo
um grande bolo de amigos
embolados num abraço

É isso: vamos fazer amigos
e fazê-los tão bem feitos
que nunca mais se desfaçam
ainda que o tempo conspire
e mesmo a morte intervenha
vamos fazer amigos

E vamos fazer amores
e deles filhos e noras
e afilhados e compadres
e netas e namorados
para tumultuar o almoço

Vamos fazer o almoço
vamos fazer muitos almoços
com brigas e gargalhadas
e lasanha e manjar de coco
e doce de abóbora e a porta aberta
para quem por acaso aparecer

vamos fazer um passeio
da José Clemente ao Ingá
vamos fazê-lo de mãos dadas
depois nunca mais soltá-las

e vamos fazer uma casa
entre o ipê e o manacá
e povoá-la de infâncias

vamos fazer um colégio
vamos fazer uma cidade nunca mais ser a mesma cidade

vamos fazer 90 anos
Só? Não.
mais os dos filhos, 268
mais os dos netos 400 e tal
contando os dos amigos todos
sei lá
muitos milhares de anos
uma fortuna de existências
como fazemos para caberem numa pobre vida só

para vida tão abastada
põe-se um problema de espaço
vamos alugar um clube
vamos demolir paredes
vamos romper a madrugada
vamos fazer uma festa

vamos fazer um vídeo
vamos fazer um poema
vamos fazer um poeta
ainda que sempre futuro

vamos fazer uma festa
e vamos fazer umas viagens
umas quantas: umas de ir, outras de ficar
outras de voltar e depois voltar
e depois voltar
onde nunca mais se pode voltar

e vamos fazer de conta
que a vida foi sempre doce
vamos fazê-la de trouxa
fazer-lhe cara bonita
mesmo quando ela não mereça

melhor: vamos fazer dela uma festa
90 anos de festa


Mãe, vamos fazer uma festa

25.4.14

Kepler 186f

Quando eu crescer quero ser astronauta
quem não quer? 
mas quando for grande a sério 
quem sabe quando for velho 
e sábio
ah, mãe, quero ser astrónomo
pela janela vigiar os planetas
adivinhar onde vão, a que horas voltam
e de repente enamorar-me de um
- consegue ver? ali, aquele
ténue, breve brilhinho distante
ou nem mesmo isso - aquele vestígio
ou ainda menos - o fantasma
do rasto de um grão de areia a fazer sombra a uma estrela
longe
longe
muito longe

então virar para ele demoradamente
a ponta amante do meu telescópio
e acreditar que foi para mim que piscou
numa tarde como esta, há quatrocentos e noventa anos
e desde então, sem pressa, como quem
conhece o que está escrito nas estrelas
foi-me enviando, imperturbável, os seus fótons
os seus neutrinos

e esperando por mim

24.1.14

Balanço

Desperdicei o meu dia
da manhã ao meio dia
vi-o escorrer pelo ralo
da pia

desde a sesta até à ceia
vi-o fugir como a areia
que o vento leva da praia
levou-o a maré cheia
a turista em sua saia
vi-o fugir como a areia
pela fresta da ampulheta
ficou a vida incompleta
de tudo o que prometia
queria-o guardar não pude
fazê-lo render, não soube
não tenho o campo lavrado
a página está baldia
nem grão de trigo plantado
nem semente de poesia

desperdicei o meu dia 

21.1.14

A quem



A quem
a quem me devo
a quem descrevo sempre o que
não fiz
a quem nunca me atrevo a parecer
mais que aprendiz
a quem prometo outra vez ser
feliz
a quem consinto se ao me ver
me diz
aquém
aquém da ponte que leva ao que
quis
aquém do ponto imaginário em que
sorris

a quem?

7.12.13

O futuro



O futuro chegou
mas esquecemos de encomendar os sapatos

agora olhamos para as alamedas
escorregadias do futuro
e não sabemos muito bem

minha mulher, que é mais afoita
já caiu duas vezes
está melhor, coitada
mas ainda se queixa um bocadinho das ancas

eu, não:
arrasto-me

mesmo que raspe um pouco as mãos por estas pedras
estas pedrinhas pontudas do futuro
mesmo que não vá muito longe
não faz mal

grudo-me ao chão gelado e pelo menos
ninguém me verá cair nas alamedas do amanhã



07-12-2013

29.10.12

Rua


sou de tempo nenhum – procuro à toa
a voz que ecoa a tua quando eras
será nesta Lisboa ou noutra terra
ainda mais remota e estrangeira
que um dia te acharei – e a vida inteira
a cochilar num banco de jardim
entretanto sem fim e sem ninguém
a quem pergunte o nome desta rua
passo, e vozes por mim – nenhuma é a tua
de nenhum tempo vim – te espero à toa


Carcavelos, 29-10-2012

17.6.07

Escombros

A presença dela me ficou como uma dor de garganta
uma pressa de voltar ao que já não existe
a raiva de encontrar tão deserto o real
a presença dela me ficou como o prédio desabado na avenida da Liberdade
se é algum consolo não estar ali nenhum operário na hora do desabamento
não estava nenhum operário na hora do desabamento
era domingo
segunda-feira encontrei os escombros, só mais um punhado de lixo
a atravancar a cidade
andaimes retorcidos entre pedaços de concreto
e as duas metades do cartaz que anunciava o prédio
ia ser a maravilha da avenida
escritórios do século 21 com uma fachada pombalina
o futuro e o passado, o belo e o útil, tudo reunido no mesmo lugar
se não fosse ruir tudo assim num domingo de chuva
por causa dos lençóis freáticos ou de qualquer coisa que o valha
a presença dela ruiu assim, era noite e também chovia
mortes não houve, estava só eu pela redondeza e sobrevivi
a prova de ter sobrevivido é que de vez em quando até passeio ali, por essa
esquina da memória
onde só quem não passa é o camião da câmara para recolher o entulho
tanto tempo passou e os mesmos cacos do que ia ser sempre ali espalhados
assim como é que pode uma pessoa trafegar

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