17.6.07

Escombros

A presença dela me ficou como uma dor de garganta
uma pressa de voltar ao que já não existe
a raiva de encontrar tão deserto o real
a presença dela me ficou como o prédio desabado na avenida da Liberdade
se é algum consolo não estar ali nenhum operário na hora do desabamento
não estava nenhum operário na hora do desabamento
era domingo
segunda-feira encontrei os escombros, só mais um punhado de lixo
a atravancar a cidade
andaimes retorcidos entre pedaços de concreto
e as duas metades do cartaz que anunciava o prédio
ia ser a maravilha da avenida
escritórios do século 21 com uma fachada pombalina
o futuro e o passado, o belo e o útil, tudo reunido no mesmo lugar
se não fosse ruir tudo assim num domingo de chuva
por causa dos lençóis freáticos ou de qualquer coisa que o valha
a presença dela ruiu assim, era noite e também chovia
mortes não houve, estava só eu pela redondeza e sobrevivi
a prova de ter sobrevivido é que de vez em quando até passeio ali, por essa
esquina da memória
onde só quem não passa é o camião da câmara para recolher o entulho
tanto tempo passou e os mesmos cacos do que ia ser sempre ali espalhados
assim como é que pode uma pessoa trafegar

13.6.07

Recado


Fui entregar a minha alma
à velha rua da Palma
número dez, sexto andar
no prédio sem interfone
elevador, nem ninguém
que desse por esse nome
disseram-me para tentar
a porta do prédio ao lado
onde um velho desgrenhado
sarro nos dentes
olhos de gesso
não conhecia o endereço
favor devolver ao remetente
na velha rua da Palma
fui entregar a minha alma

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