7.9.05

Metropolitan love affair



Chove sobre a cidade -- não o bastante
para a inundar, para afogar quem mora
apenas chove -- e com calma se molha
a pressa inúmera dos habitantes
cada um sabe aonde vai e quando,
tem destino preciso como este
rio Hudson, ou aquele, ao lado, Leste
-- não como a chuva, água também, e no entanto
de fonte tão diversa, que partilha
por todo vão que encontra -- e não escolhe --
o seu roldão de multidão que escorre
de todo tecto que a cidade iça

(a cidade é um bicho que se eriça
buildings de pé, arranha-céus à espreita
mas nunca sai dali onde se deita.
A chuva lambe o bicho e a sua preguiça).

5.9.05

A idade de ouro


A felicidade saltava e lambia
língua áspera saliva espessa
nunca soubeste é se era mesmo carícia
a gosma morna em que te adormecia
cheiro de calda doce de compota
tardes sem pressa na casa da tia
e o tempo que já não volta
silêncio, banzo, fogo lento
te amolecendo, te amolecendo
quando acordaste era já outro o dia

2.9.05

Rústica

Meus olhos seguiram o campo
à velocidade da borboleta
quando ela desapareceu
meus olhos sentiram-se sós
entre árvores
cabras
vento


in Poemas Durante a Chuva,
Lisboa, MAriposa Azual, 1999

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