28.8.06

Velho estilo




O que hoje quero é algo
que me possua
que me agarre a garganta e declare
já não é tua
e me montando a voz, ou o que dela resta
a faça relinchar como uma besta
e a ponha a escoicear quem vai na rua
e a faça galopar solta por fim
de mim
até aonde acaba o planeta
e aí fique a berrar ou então quieta
para sempre, conforme lhe apeteça
quero essa coisa que me pegue na mão
e me declare a mão independente
para fazer o que bem queira e invente
ou não
e que me agarre pés, tronco, cabeça
e os faça dançar tanto, mas tanto
que eu exausto de inveja e de espanto
já não os reconheça

e sofra então a dor de não ter sido
jamais como esse outro
possuído

23.8.06

Bênção



E se ele se fartasse exatamente
no instante em que se visse a mão de um deus
despetalando os céus no seu cabelo
e logo então seus olhos, para não vê-lo
corressem sobre o mundo um véu de adeus

e se ele as costas desdenhosamente
a tanta bênção despejada em vão
já senhor de não ser nem querer nada
voltasse nessa hora desastrada
fixos os olhos e cerrada a mão

8.8.06

Boletim



I

Não era disto que eu queria falar
acredita
queria falar de alvoradas lisérgicas
pêssegos a pestanejar para nós como vulvas
a face oculta de uma estrela tão longe
regida por físicas tão inverosímeis
que todos os possíveis, lá, são possíveis
o cosmo a destruir-se e a recriar-se sôfrego
quinhentas e trinta e três vírgula três milhões de vezes ao cubo
por segundo
queria falar de tudo

mas não disto

queria falar do Darfur
queria falar do Líbano
crianças às dezenas massacradas por um único míssil
o prédio de apartamentos
a camioneta onde fugiam
tudo arrasado e carbonizado e sem remédio morto
os hospitais a abarrotar, os braços
pernas, cabeças
pés dentro dos sapatos, pedaços
de vísceras misturadas aos escombros
pó tijolos vergalhões fedor a sangue
mas não se sente o sangue
são só sombras
e sempre as lágrimas berradas em árabe
para que ninguém as entenda
todos os urros iguais
monótonos
já vistos
o tédio
o grande aborrecimento dessa guerra sem fim
queria falar de tudo isso
não de mim

e no entanto
lá me volta a caneta ao mesmo canto
banal também como uma sirene
em Tiro
fazer o quê
só me apetece falar dessa tristeza
essa mesma tristeza, sempre
essa tristeza

II

Essa tristeza que engoliu o mundo
faz-me pensar um pouco no dilúvio
lembras-te?
a diferença é não haver a arca
nem bodas de animais à superfície
o mundo todo, submarino
anda para aí, flutuando, calado

entretanto vêm falar comigo
são sólidos, afáveis, quotidianos
têm as roupas secas, os olhos secos, os pés
colam-se ao solo de asfalto como se não fosse
o fundo
parece o mesmo antigo árido mundo
até mais seco, agora,
com estas vagas modernas de calor
mas eu sei

eu sei da inundação que embebe tudo
o ar em volta, paredes, carros, tudo
mergulhado nessa velha tristeza
e nada a secará
nem eu saber que é só a minha cabeça
meu cérebro esponjoso, mergulhado
nos fluidos costumeiros
substâncias químicas perfeitamente descritas pela ciência
só, talvez, no meu caso, do avesso
as enzimas erradas, o pH
ligeiramente para cima ou para baixo
um neurotransmissor em falta
ou em excesso
nada grave
se for preciso, mais tarde
esclareço

embora saiba que não há mais tarde
só este agora a alagar o mundo
memória de algo que não recomeça
e essa promessa
essa teimosa
velha
vã promessa



III

pronto
já foi

mas não era nada disto

a sério que eu queria
pôr outro disco
falar de alguma coisa diferente
qualquer coisa servia: aquela árvore
que uma onda arrancou no Mississipi
o tempo que ali esteve, inerte, exposta
a intimidade das suas raízes
e a ruminar talvez no que lhe resta

as raízes ao léu, a terra
ali tão perto e tão de vez perdida
as desvantagens de quem não se arrasta

a árvore exilada, ainda bela
e tudo nela
inútil

ou então, se não houvesse mais assunto
falávamos do tempo
que é como quem diz: do fim dos tempos
este calor, estes incêndios
certos como o verão, as vagas
de chuva e vento a demolir cidades
estas ondas gigantes, o deserto
a avançar pelas ruas de Londres
enquanto vão desmoronando os pólos
e em São Paulo
gelam de medo

5.8.06

Personagens e janela



No alto da pedra alta que se vê
da janela do apartamento
um personagem que não há contempla
o personagem que da janela do apartamento
não o vê.
Há uma agitação sob todas as coisas
nem mesmo pressentida mas na qual
penso.
A pedra distante vibra em todos os seus prótons
mésons electrons quarks
e o personagem que nela não há
vibra tão ténue, além de quanto se percebe
mas algo dele é que me atrai os olhos
através da janela de onde componho
o personagem que subitamente
mas desse modo tão pausado, inventei
e sob o qual tudo o que não é ele em mim
fervilha e se debate.
Inesperadamente
apagou-se o cigarro que fumava não sei bem por quê
apagaram-se os sons todos do apartamento
e só restou este mover-se subterrâneo das coisas
este apenas sabido, na pedra, à distância
e mais o esvoaçar de uma ave e outra
e o que o vento provoca nas árvores do morro próximo
tudo em verdade rápido e agitado mas que traduzo
como um bulício apenas, apenas o mover-se
manso
a respiração improvável das coisas.
Da rua congestionada vêm sons de buzinas - a lembrar
que nada parou, nada é quieto, nada
contempla o personagem que fumava à janela
e agora escreve a sua inesperada
precária calma.


in Poemas durante a chuva, Lisboa, Mariposa Azual, 1999

Ouça na voz de Luís Gaspar

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