6.11.16

Doméstica

I. 

A minha avó varria a casa
o avô criava galinhas
todos os dias vinha uma poeira nova
trazida pelo vento ou na sola das botinas
a minha avó acordava cedo
espanava o tampo das mesas, os braços da poltrona
juntava montinhos de areia no batente das portas
e recolhia tudo, silenciosa
no quintal, o avô criava galinhas
Suzana tinha sete pintos, o Baby quatro
mas Alfredo é quem tinha mais

por cima de tudo, o sol também se calava


II.

no entanto sobrou alguma coisa atrás de um armário
entre a parede e a cristaleira
nas páginas de um livro velho

as galinhas morreram todas - salvo uma
que ninguém tinha visto nascer e procriar
e que contudo espalhou a sua descendência

por fim a casa ruiu
os avós foram esquecidos
mas a cidade, inexplicavelmente
anda coberta dessa camada de pó - que se avoluma
enquanto piam pássaros nefastos.


in Poemas Durante a Chuva
Lisboa, Mariposa Azual

1.11.16

Agenda

Quando a manhã for a meio
e a tarde quase fatal
entenderei ao que veio
a madrugada, afinal?

aceitarei que anoitece
a hora a escorrer de mim
quando o que quis que viesse
não veio, não foi assim

e o olhar do tempo, tranquilo
no espelho da minha mão
repete que sobre aquilo
a resposta é muda - e é não?


Outubro 2016

5.4.16

Eco

para eu te querer mais fazes-te rara
dissipas-te entre quando e nunca mais
vasculho e lá não estás
chamo-te e calas
meu eco pela sala
onde andarás?

procuro provas de que foste um dia
faz um segundo
tanto tempo faz
teu fundo ainda em minha mão vazia
diz-me que voltarás
não voltarás

foste cabelo
cheiro
pele
língua
o espesso instante - e agora o que retenho?
quatro sílabas de um nome
o desenho

da sobrancelha em forma de talvez
e um vestígio feliz que aos poucos míngua
venceste
te desejo
agora vens?

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