17.6.07

Escombros

A presença dela me ficou como uma dor de garganta
uma pressa de voltar ao que já não existe
a raiva de encontrar tão deserto o real
a presença dela me ficou como o prédio desabado na avenida da Liberdade
se é algum consolo não estar ali nenhum operário na hora do desabamento
não estava nenhum operário na hora do desabamento
era domingo
segunda-feira encontrei os escombros, só mais um punhado de lixo
a atravancar a cidade
andaimes retorcidos entre pedaços de concreto
e as duas metades do cartaz que anunciava o prédio
ia ser a maravilha da avenida
escritórios do século 21 com uma fachada pombalina
o futuro e o passado, o belo e o útil, tudo reunido no mesmo lugar
se não fosse ruir tudo assim num domingo de chuva
por causa dos lençóis freáticos ou de qualquer coisa que o valha
a presença dela ruiu assim, era noite e também chovia
mortes não houve, estava só eu pela redondeza e sobrevivi
a prova de ter sobrevivido é que de vez em quando até passeio ali, por essa
esquina da memória
onde só quem não passa é o camião da câmara para recolher o entulho
tanto tempo passou e os mesmos cacos do que ia ser sempre ali espalhados
assim como é que pode uma pessoa trafegar

3 comentários:

  1. Amo a sua poesia.

    HannaH

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  2. eu e pedro lopes do site www.luso-poemas.net estamos a pensar fazer uma antologia 100 autores, 100 poemas pela ecopy. Neste projecto cada autor participa com 1 texto. O unico custo que terá é comprar 1 livro, ou seja terá o preço de 12 euros. é um livro que pode estar em qlq loja que qualquer autor arranje para além das muitas lojas onde está presente, pensei em a convidar, se quiser será um prazer:)
    resposta para pedro_lopes777@hotmail.com
    grande abraço

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  3. oi.
    que pena que abandou este blog.
    era tão bom.
    eu ressuscitei o meu.
    e vim linkar o teu.
    achei 2007. :-)
    anda escrevendo em outro lugar pela web?
    abraço.
    katine

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