5.8.06

Personagens e janela



No alto da pedra alta que se vê
da janela do apartamento
um personagem que não há contempla
o personagem que da janela do apartamento
não o vê.
Há uma agitação sob todas as coisas
nem mesmo pressentida mas na qual
penso.
A pedra distante vibra em todos os seus prótons
mésons electrons quarks
e o personagem que nela não há
vibra tão ténue, além de quanto se percebe
mas algo dele é que me atrai os olhos
através da janela de onde componho
o personagem que subitamente
mas desse modo tão pausado, inventei
e sob o qual tudo o que não é ele em mim
fervilha e se debate.
Inesperadamente
apagou-se o cigarro que fumava não sei bem por quê
apagaram-se os sons todos do apartamento
e só restou este mover-se subterrâneo das coisas
este apenas sabido, na pedra, à distância
e mais o esvoaçar de uma ave e outra
e o que o vento provoca nas árvores do morro próximo
tudo em verdade rápido e agitado mas que traduzo
como um bulício apenas, apenas o mover-se
manso
a respiração improvável das coisas.
Da rua congestionada vêm sons de buzinas - a lembrar
que nada parou, nada é quieto, nada
contempla o personagem que fumava à janela
e agora escreve a sua inesperada
precária calma.


in Poemas durante a chuva, Lisboa, Mariposa Azual, 1999

Ouça na voz de Luís Gaspar

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