3.8.05

Etiologia

Todas as coisas já são mais que usadas
mas mais que todas elas as palavras
passeiam entre as bocas como vírus
como átomos promíscuos de oxigénio
nossos anelos, nossos zelos nelas
não somos nós, são elas, nossos elos
lá de onde vêm, quem sabe desde quando
trazem mensagens das caladas eras
por não sabermos lê-las, e as colhermos
pensando que eram nossas, da traquéia
já há tanto tempo muda de um qualquer
usaram a nossa voz, fizeram dela
o seu cavalo, o seu táxi, a sua amante
de circunstância, nada de importante
depois partiram, deixaram-nos sós.
Muito depois de já não termos mais
assunto, voz, nem língua, nem garganta
cada palavra que hoje vibra em nós
contará ainda, de nós esquecida
outras histórias, outra despedida
outra alegria, outra desesperança.

2 comentários:

  1. Não é a repetição. É o sentido.
    Lindo! Lindo!
    Agora encontras-me num blog com outro nome. Apaga o primeiro.

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  2. As vezes penso se não é o sujeito que escreve, mas antes aprende o sentimento dos outros que não sabem dizê-lo: obrigado por me falar, nesse dia coincidente ao do poema, do que meu ouvido não soube ouvir do coração.

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