31.8.05

Nepotismo



Cantar o dom: o caprichoso furo
por onde sai, só quando lhe dá jeito
o fluido da divindade
enxurrada de amor sobre a cidade
e o resto de nós no escuro
só os filhotes do acaso, os seus eleitos
repletos do que aos outros escasseia
nem vêem a nossa inveja que passeia
despudoradamente pelas ruas
uma na frente a outra atrás a sua
desprovida de tudo, descabida
pretensão, água benta ao desbarato:
prato vazio, frio -- e ali ao lado
a esbórnia do barão

vão
tiritar de despeito e de misérias
melhor sair de férias para sempre
exilar-se em Pequim, em Lima, em Roma
entrar de vez profundamente em coma
mergulhar no mar Ártico sem pele
sem pressa se afogar, tocar o fundo
deixar que o mundo finalmente gele
antes do espasmo final, um segundo
rever a face do zero absoluto.

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