4.8.05

Paisagem com o Tejo e uma gaivota



Da janela do comboio projectei a paisagem:
entre a recta do rio, imaculada
e o capricho da serra, mais longe
era preciso que aquela gaivota
fosse voando, horizontal e sempre
até que o rasto que o seu voo traçasse
todo outro risco do mundo suprimindo
pela janela compusesse o universo:
as coisas todas ali, reequilibradas.

A gaivota, porém, tendo avistado um peixe
ou outra coisa qualquer, em tudo alheia
à minha frágil, perfeita arquitectura
bem antes do previsto inflectiu o seu curso
e ao mergulhar no rio -- já não recta
mas rio mesmo, de água mesmo, rebelde
a todo plano meu -- afogou a paisagem
e me deixou ali, desapontado e tão à toa
que, da janela do trem, e à falta de melhor passatempo
me pus a pensar nas manias de deus
e nas partidas que nos prega o amor
e em rios que transbordam e em outras dessas coisas
desprovidas de maior importância.

1 comentário:

  1. Venho retribuir a visita e dizer que gostei deste blog, voltarei mais vezes.
    Parabéns!


    maria

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