Não, não escolhas tanto
17.10.21
Não escolhas tanto
12.9.21
Num postal de Babilônia
Mãe
Diagnóstico
12.8.20
Das palavras
Palavras são como casas
(ruas
pontes)
uma tão pequena parte do mundo
lá fora há pólen pó bactérias gafanhotos
rugosidades fumo espinhos lixo
e, entre todas essas coisas com nome,
as outras, tantas mais, que não têm nome:
o que sente o pássaro nas suas vísceras quando o tempo
vai mudar amanhã
a coincidência de forma entre a pedra e a pedra
quando entre elas passa o olhar de um lagarto
o que sentiu o teu corpo nessa específica tarde
quando o teu corpo era a tarde e a impossibilidade de ser a
tarde
a tarde era esquiva e longe
a tarde era o resumo das
distâncias
a tarde era nunca mais
a tarde não foi feita para caber em palavras
o mundo não cabe em palavras
o mundo não cabe
não cabe nos teus olhos nos teus braços
nos teus nãos
por isso carregas esse medo do mundo
moves-te de casa em casa
de rua em rua
esgueiras-te por cima das pontes como quem anda em pontas de pés
por isso és esse Jacques Tati
tão cómico a desviares-te da lama dos buracos da sujeira dos
cães
dos vírus dos mendigos das correntes de ar
tão bom menino
sempre calçado sempre agasalhado como a mãe mandou
palavras são como pantufas
são como luvas
como cachecóis
acontece que o mundo não respeita as palavras
abre-se uma janela e ele entra
uma fresta no telhado e ele entra
uma fresta na pele
a mão que te esqueceste de lavar
o mundo enche a casa de pó,
alaga as ruas
dissolve os teus pulmões
palavras são como galochas
um tanto ridículas mesmo quando te mantêm os pés secos
são como chapéus de chuva e acontece que às vezes venta
era tanto vento, mãe, tanto vento
o mundo não foi feito para caber em palavras.
1.1.20
Cenizas
25.12.19
Dezembro
25.6.19
Voto
31.3.19
Tu
29.4.18
Meio
não sei se o acaso, pela minha mão
- tudo o que tenho é o que me dão
e vão tirando. Mas não faço caso.
Entre o que há de vir e o que veio
o big bang e este minuto
sou só o meio
um filamento, um conduto
um canal
o breve bruxuleio de um sinal
fortuito
que alguém talvez me fez mas que eu, que vejo mal,
não leio.
(Às vezes penso nisto - mas não muito.
Não esperneio.
Olho para o lado.
Nisto que sou nem tido nem achado
hoje não sei. Amanhã estarei calado).
13.3.17
Narciso
à beira da fonte, mira
a suprema maravilha
dentro do espelho gelado.
E decide apaixonar-se
pela luminosa face:
não pelo traço que conhece
que com seu próprio semblante
no amado rosto se parece
mas pelo dessemelhante:
pela criatura estranha
que à beira da fonte emerge
nas águas do amor se banha
o belo moço, e se perde.
(Do outro lado do espelho,
Narciso, lúcido, ignora
a conhecida miragem.
O céu se pinta de vermelho
- espanto tanto da hora -
a tarde ensaguenta a paisagem).
In Poemas Durante a Chuva
Lisboa, 1999, Mariposa Azual
6.11.16
Doméstica
A minha avó varria a casa
o avô criava galinhas
todos os dias vinha uma poeira nova
trazida pelo vento ou na sola das botinas
a minha avó acordava cedo
espanava o tampo das mesas, os braços da poltrona
juntava montinhos de areia no batente das portas
e recolhia tudo, silenciosa
no quintal, o avô criava galinhas
Suzana tinha sete pintos, o Baby quatro
mas Alfredo é quem tinha mais
por cima de tudo, o sol também se calava
II.
no entanto sobrou alguma coisa atrás de um armário
entre a parede e a cristaleira
nas páginas de um livro velho
as galinhas morreram todas - salvo uma
que ninguém tinha visto nascer e procriar
e que contudo espalhou a sua descendência
por fim a casa ruiu
os avós foram esquecidos
mas a cidade, inexplicavelmente
anda coberta dessa camada de pó - que se avoluma
enquanto piam pássaros nefastos.
in Poemas Durante a Chuva
Lisboa, Mariposa Azual
1.11.16
Agenda
e a tarde quase fatal
entenderei ao que veio
a madrugada, afinal?
aceitarei que anoitece
a hora a escorrer de mim
quando o que quis que viesse
não veio, não foi assim
e o olhar do tempo, tranquilo
no espelho da minha mão
repete que sobre aquilo
a resposta é muda - e é não?
Outubro 2016
5.4.16
Eco
não voltarás
cheiro
pele
língua
o desenho
10.10.15
Bondade
14.7.15
Sobre uma foto do rio São Francisco
10.5.15
Treva
O soldado entrincheirado
no seu buraco de lama
vê nascer lá fora a lua
seu coração se derrama
mas sua vista se turva
o inimigo viu primeiro
a lua, e com seu morteiro
explode-a em mil pedaços
o soldado estende os braços
para o luar espalhado
sobre a terra, sobre a treva
da trincheira do soldado
Cisma
Se eu ficar aqui olhando
pro mar pro mar pro mar
ficar olhando até quando
a Terra se iluminar
se eu gastar todo o meu tempo
nesse cismar sem assunto
será que encontro o motivo
de existir mar
de haver mundo
Logística
tanto livro que li, tanta literatura
agora me atravancam a sala
fui comprar uma estante, era os olhos da cara
agora onde é que guardo o disco, a partitura
a enciclopédia, o dicionário
se ao menos eu tivesse um armário
vida dura dura dura dura
o que é que eu faço de tanta cultura
29.7.2004



